Oi gente, hoje trago para vocês mais uma entrevista dada pelo autor Markus Zusak. Novamente não fui eu que tive o prazer de entrevistá-lo. Esta reportagem foi retirada do site da Editora Intrínseca e realizada pelo Joe Utichi.
Desta vez, Markus dá o seu depoimento sobre como foi escrever A Menina que roubava livros e sobre o que achou da adaptação cinematográfica do seu famoso livro. Para quem ainda não viu o filme A Menina que roubava livros, ele estreou nos cinemas brasileiros dia 31/01/14 e já tem resenha dele no blog AQUI.
"Nascido em Sydney, na Austrália, Markus Zusak é um dos principais autores de literatura jovem do mundo. Seu primeiro romance, O azarão,
foi publicado em 1999, e conta a história de um adolescente sem
perspectivas e da garota por quem ele se apaixona. O livro levou sete
anos para ser publicado, mas seu sucesso imediato deixou claro que Zusak
não teria muita dificuldade para lançar os dois romances que eram
sequência ao primeiro: Bom de briga e A garota que eu quero.
Em 2002, Zusak publicou Eu sou o mensageiro, uma narrativa em primeira pessoa sobre um taxista de dezenove anos que se vê envolvido em um assalto a banco. O jovem Ed Kennedy é aclamado herói ao, acidentalmente, atrapalhar a fuga dos ladrões. Quando começa a receber pelo correio cartas de baralho com uma série de charadas, a vida de Ed muda para sempre. Eu sou o mensageiro foi eleito Livro do Ano pelo Children’s Book Council of Australia em 2003 e obteve críticas elogiosas mundo afora.
Mas foi seu romance de 2006, A menina que roubava livros ─ sobre uma jovenzinha curiosa, a
vida dela na Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial e o poder
transformador das palavras ─, que proporcionou a Zusak os maiores
louvores. Na lista de mais vendidos do New York Times por mais
de 375 semanas, o livro conta a história de Liesel Meminger narrada pela
própria Morte, e recebeu, entre diversos prêmios, o Printz Honor da
American Library Association.
Depois de uma visita ao set de filmagem da adaptação de A menina que roubava livros, no estúdio Babelsberg, na Alemanha, Zusak falou sobre a história e sua transformação em uma grande produção cinematográfica.
Como lhe ocorreu a história de A menina que roubava livros?
Eu não sabia que tinha aquele livro dentro de mim. A melhor maneira
de começar a responder à sua pergunta é dizer que cresci em Sydney, que
tem, como você pode imaginar, um clima quente e agradável,
principalmente no verão. Quando voltávamos para casa depois de jogar
cricket, meus pais contavam histórias sobre a guerra, cidades em chamas e
prisioneiros judeus famintos. Na época, não percebi, mas acho que foi
aquilo que fez de mim um escritor. Meus pais não só conheciam boas
histórias, mas também eram excelentes contadores, e ter um pai e uma mãe
capazes de fazer isso é muita sorte. Acho que foi aí que o livro
surgiu. Eu já tinha escrito quatro outros romances, mas, quando acabei
esse, compreendi que era o livro que significava tudo para mim. Quem
pode experimentar esse sentimento com relação a pelo menos um de seus
livros em toda a carreira é um sujeito de sorte.
Deve ser especialmente gratificante ver que o livro significou tanto para tantas outras pessoas também.
É engraçado; acabei percebendo que o livro tinha vida própria.
Lembro-me de tê-lo escrito convencido de que seria meu romance de menor
sucesso, mas a coisa foi crescendo, crescendo, crescendo. Quando isso
acontece é libertador, porque a gente pensa: “Tudo bem, vou fazer este
livro do jeito que eu quero, porque ninguém mais vai lê-lo.” De certa
forma, sinto-me muito ligado a ele, mas, por outro lado, tenho a
impressão de que ele está apenas circulando por aí, seguindo seu
caminho, sem mim. Às vezes é meio surreal que tanta coisa tenha
acontecido com esse livro.
E como você se sente agora que ele está se tornando também uma grande produção cinematográfica?
É impressionante entrar naquele set. A primeira sensação que tive foi
um alívio imenso por ver que a responsabilidade não era mais só minha.
Entendi que sou um sortudo e que não preciso mais me preocupar com
aquilo! De repente, minha história está nas mãos de centenas de pessoas,
e nas mãos de gente incrivelmente talentosa. Cada vez que me vi diante
de uma decisão a tomar enquanto escrevia o livro, segui minha intuição, e
passei o tempo todo seguindo minha própria visão da história. Brian,
Karen e todos os demais respeitaram isso, mas também trouxeram a visão
deles para a narrativa. Nesse sentido, eu não poderia estar mais feliz, e
quero que eles façam dessa história sua própria obra. Para mim foi um
privilégio visitá-los, e também foi meio estranho, porque agora isso
tudo não é mais meu, e sim deles. De certa forma, é completamente
diferente. Eu me pergunto por que estou ali, e alguém vai me responder:
“Bom, todos nós estamos aqui por sua causa!”
Como você compôs a personagem Liesel?
Em muitos casos, quando se tratam de ideias, tudo acaba sendo pura
sorte. Tinha pensado num livro sobre alguém que roubasse livros, uma
história que se passasse na Sydney de hoje, e cheguei a escrever a
primeira página, mas então meu computador quebrou. Eu tinha escrito
sobre uma menina ― sempre foi uma menina ― que subia numa janela e
roubava um livro. Por outro lado, sempre tive vontade de escrever sobre
os meus pais crescendo na Alemanha e na Áustria durante a Guerra. Acho
que é isso que acontece com um escritor, na verdade ─ quando percebe que
uma ideia não basta, então junta duas. Misturei a personagem que
roubava livros com as histórias de meus pais e comecei a descobrir como
as duas se encaixavam. Foi só quando já tinha quatrocentas páginas que
compreendi que, ao roubar um exemplar de Mein Kampf, ela está
recuperando aquelas palavras e escrevendo sua própria história em meio
àquele mundo de devastação. Tudo se mistura. Então me passou pela cabeça
a ideia de introduzir a Morte como narradora, e isso também fez
sentido. É um pouco como misturar ingredientes numa vasilha e ver se
funcionam juntos. Quando começa a dar certo, você não questiona,
simplesmente segue em frente. Não estou querendo dizer que não foi
difícil escrever o livro, mas o tempo todo havia algo de verdadeiro ali.
Todos os personagens renegam os estereótipos e clichês tão
comuns nas histórias sobre a Segunda Guerra Mundial. Até que ponto isso
foi um trabalho consciente?
Na verdade, não foi. São pequenos lampejos de coisas que acabamos
ouvindo, vendo ou que nos contaram. Algumas das histórias mais
importantes que escutei quando era pequeno podem ter sido breves
comentários, mencionados despretensiosamente. Minha mãe pode ter dito:
“Claro que meu pai não quis pendurar a bandeira nazista na janela no dia
do aniversário de Hitler, e minha mãe disse ‘Ótimo, assim eles vão vir
atrás de você e boa sorte!’” Portanto, algumas dessas histórias eram bem
engraçadas, principalmente as que falavam da extrema pobreza na qual
eles viveram depois da guerra e outras coisas do gênero. Meu pai não
queria de jeito nenhum entrar para a Juventude Hitlerista. Achava aquilo
tudo uma chatice. O que ele queria mesmo era ir para a beira do rio
jogar pedras na água junto com os amigos. Até que um dia começaram a
chegar cartas dizendo: “Seu filho deve entrar para a Juventude
Hitlerista.” A primeira coisa que nos passa pela cabeça não é o fato de
isso ser uma perspectiva diferente; a primeira coisa que pensamos é:
“Nossa, essa história é bem legal.” Juntando esses detalhes, a gente
começa a construir algo bem maior. No caso, esse algo é que nem todos os
alemães agiam da forma como vemos em vários documentários, fazendo
aquela saudação com o braço estendido. Havia quem se rebelasse contra
aquilo. Minha intenção não era ser pioneiro ao dar voz para essas
pessoas; já se escreveu sobre isso antes. Eu só queria escrever sobre a
vida interessante que elas levavam, e eu esperava que o restante
surgisse por si só.
Você tinha em mente um leitor enquanto escrevia o livro?
Na maior parte do tempo, quando estou escrevendo um livro, tento
procurar o leitor e dizer: “Venha comigo, avance um pouco mais. Estou
aqui com você.” O autor vive tentando agradar o leitor para que ele não o
deixe. Chega uma hora, quando o autor já vem trabalhando num livro por
meses ou anos a fio, em que simplesmente pensa: “Sabe do que mais, já
cansei disso tudo. Se quiser fazer parte deste livro, me acompanhe”. As
pessoas que você atinge, então, vão amá-lo para sempre, e acho que tive
muita sorte de encontrar leitores que confiam em mim. Quem gosta do
livro gosta de verdade, e sou profundamente grato a todos. Acho que a
questão é a seguinte: o autor não consegue atingir as pessoas se não se
arriscar. Se aprendi alguma coisa, agora que o livro já está circulando
há sete anos, é que se um bom número de leitores gosta de você, um bom
número não gosta. Não dá para agradar todo mundo, então é melhor fazer
as coisas do jeito que quer fazer. Acho que, a princípio, a relação com o
leitor é bem aberta, mas depois o autor precisa abrir mão dela um
pouco.
Geoffrey Rush está profundamente apaixonado pelo projeto. Como foram as conversas entre vocês?
Foram incríveis. Ele é um sujeito tão interessante… e realmente
generoso. É muito receptivo. Ficava me fazendo perguntas o tempo todo.
Mencionou duas canções que toca no acordeão e conversamos muito sobre
isso. Falamos de todos os pequenos detalhes intricados que ele queria
dar ao personagem. Ele pensa que em cada segundo na tela precisa fazer
plena justiça ao personagem e torná-lo vivo para o público. Ver esse
tipo de dedicação me deixou pasmo. Posso dizer o mesmo de Emily Watson.
Sem dúvida foi emocionante vê-la nos degraus da rua Himmel, 33. Na hora ―
aliás, é sempre assim ― não me dei conta disso, mas hoje considero que
aquele foi um momento incrível.
Rosa não é uma personagem que Emily Watson normalmente interpretaria. É isso que a torna indicada para o papel, na sua opinião?
Assim que vi o nome dela escrito em alguns lugares, pude imaginá-la
perfeitamente como Rosa. Depois de vê-la em tantos papéis, a gente sabe
que ela pode trazer a profundidade dessa personagem à tona. Acho que
todos gostamos de ver algo inesperado, e também a considero uma atriz
muito generosa. Lembro-me de ter lhe dito no final: “Obrigado pelo seu
trabalho, estou muito empolgado com sua participação no filme.” E ela
foi uma graça: me deu um abraço apertado e disse que o prazer era dela.
Havia um clima muito bom entre todos ali. E pelo que todos disseram
sobre Brian, fiquei com a impressão de que ele é uma pessoa muito boa.
Esse tipo de livro precisa de alguém assim para transformá-lo em filme.
Sophie foi um achado. Ela é como a Liesel que você imaginou?
Na verdade, eu a vi no ano passado em Monsieur Lazhar, um
excelente filme franco-canadense. Ela estava fantástica no papel e
lembro-me de ter dito à minha mulher: “Olhe, essa aí é a Liesel”. Acho
que a relação dela com Nico Liersch, que está
interpretando Rudy, é maravilhosa. Vê-los correndo juntos, como as
crianças que são, é incrível. Quando a gente olha para Sophie,
simplesmente não consegue imaginar nenhuma outra atriz fazendo esse
personagem; e a mesma coisa acontece com Ben Schnetzner, que faz o papel
de Max. Nós o conhecemos, e eu não o vi em nenhuma cena, mas só de
olhá-lo atravessando a rua num determinado momento, pensei, “Esse aí é o
Max.” Todos se entrosaram perfeitamente.
O livro enfatiza bastante o poder das palavras, mas o filme, evidentemente, é uma mídia visual. A seu ver, isso faz diferença?
Pelo que sabemos, o filme pode destacar ainda mais esse poder. O
resultado do set do porão, com todas as palavras pintadas ali, é
magnífico. E também, quando a gente vê o elenco, percebe que Geoffrey
Rush pode fazer isso em dois segundos só de olhar para alguém. Claro que
é um veículo diferente, mas capaz de lançar luz sobre algo que possa
ter passado despercebido no livro. No fim das contas, estou me
perguntando o que eu queria de fato. Sei que vai ser diferente. Sei que
vou procurar certas coisas que faltarão. Mas acho que o filme vai ter a
mesma paixão do livro, e acredito que não posso pedir mais do que isso.
Creio com certeza que o poder das palavras que está ali na história
estará no filme também.
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Que legal Mi,
ResponderExcluiradorei a entrevista, sou apaixonada por esse livro, infelizmente não assisti ainda ao filme, como o cinema da minha cidade apresenta um atraso de uns mil anos luz em relação aos demais tenho planos de assistir o filme até o final do ano, de preferência antes de sair o dvd hehehe
http://soubibliofila.blogspot.com.br/
Que pena Del, espero que você consiga assistir ao filme o quanto antes. É tão lindo quanto o livro. Beijos
ExcluirO livro é maravilhoso e o filme mais ainda, adorei a entrevista.
ResponderExcluirhttp://exceptionss.blogspot.com/
Oi Ana, que bom que gostou. Beijos
ExcluirÉ ótimo ler entrevistas com escritores que gostamos porque sempre acabamos por conhecer mais a pessoa, certo? E eu adorei, Mi! Estou louca para ver o filme e saber se aquela poderia mesmo ter sido a Liesel perfeita, mas se o Markus disse que é, quem sou eu pra ir contra ele? haha
ResponderExcluirBeijos!
Oi Babi, você ainda não viu? Nossa, para mim todos os atores estão perfeitos na adaptação, não poderia ter pensado em atores melhores. Espero que você também goste. Beijos
ExcluirQuando fiquei sabendo que o Geoffrey Rush interpretaria o Hans, fiquei empolgadíssima, sou fã dele desde Piratas do Caribe! E realmente, se encaixou no papel perfeitamento. Aliás, todos os atores!
ResponderExcluirO livro dispensa comentários e o filme é muito poético, com uma fotografia linda! Gostei muito!
Minha nossa, minha nossa.. sabia que conhecia esse ator de algum lugar e só agora é que a minha ficha caiu.. kkk Fico feliz em saber que você gostou do filme tanto quanto eu. Beijos
ExcluirAdorei a entrevista. Foi bom conhecer um pouco mais sobre o autor. Acredita que eu nunca li A Menina que Roubava Livros? Quero ver se assisto o filme e depois tento ler, quem sabe não me surpreendo?
ResponderExcluirBeijos
Não creio! OMG! Isso, veja o filme sim, por meio dele você já vai conseguir ter um termômetro sobre o que se trata a história e ver se o livro chega a te interessar ou não. Beijos
ExcluirAh acho que estou apaixonada por ele, nossa o Markus é muito fofo gente, eu confesso não li o livro ainda e nem vi ao filme, culpada, mas pretendo fazer ambos logo, ainda mais depois de saber tudo isso, como ele criou a historia nossa, e realmente as vezes é assim para quem escreve, você escreve do jeito que quer dizendo ninguém vai ler mesmo, e as pessoas acabam adorando.
ResponderExcluirBeijos!!!
Ahhh, não creio! Você precisa conhecer essa história.. hehe Beijos
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