Hoje vou convidá-los para conhecer os bastidores de O Oceano no Fim do Caminho e descobrir como e por que o livro foi feito!!
Ao pesquisar sobre Gaiman na web, cheguei até o blog da Amanda Palmer, sua esposa, e pude ler um post imenso que ela fez sobre o livro O Oceano no Fim do Caminho e sobre o casamento deles.
Amanda nos conta que alguns anos atrás, quando ela e Neil estavam na Austrália se recuperando de uma corrida no parque, caminhando bem devagar e saboreando o momento em silêncio, começou a compor uma música em sua cabeça, quando Neil bateu no seu braço e disse que tinha uma coisa que queria dizer a ela, algo muito pessoal e que queria dividir.
Ela disse "sim", mas perguntou se ele não podia esperar, porque estava no meio de uma composição e com aquela música presa na cabeça e queria poder chegar em casa logo e tocá-la no piano para não esquecer. Eles estavam a quatro quadras de casa. Ele concordou, mas ficou mudo depois disso.
Uma hora mais tarde, quando ela já estava acessível novamente, percebeu que ele tinha fugido para o seu "mundinho" particular e que não ia mais voltar, e que ela ia ficar sem saber a história que ele queria contá-la. Ela implorou para que ele dissesse. Ele disse "não, o momento passou". Amanda se sentiu culpada, egoísta e estúpida. A gente não consegue recuperar esses momentos, eles nunca voltam uma vez perdidos e muitas vezes somos idiotas o suficiente para não compreendê-los e deixá-los passar. Amanda percebeu que havia colocado seu trabalho acima do seu marido, podendo quiçá comprometer sua relação.
Mas ao mesmo tempo, Amanda ficou fula da vida pensando no por que estava sendo punida se ela, assim como ele, também era uma artista e também tinha direito a ter momentos de inspiração. "Por que você não me ama?", ela pensou.
A questão é, ambos sempre estiveram muito acostumados a ter controle sobre seus pensamentos, seu tempo, seu domínio criativo. Estiveram sozinhos por muito tempo e administrar uma vida de casado nem sempre é fácil. É bonito na teoria, mas na prática, é difícil, pois tem de haver todo um manejamento de atividades e horas livres, bem como uma flexibilidade por parte do casal, e naquela época, naquele contexto, Neil se sentiu rejeitado por não ter tido atenção da esposa na hora em que quis. Hoje, Amanda diz que não se arrepende de ter feito o que fez, porque se não o tivesse feito, O Oceano no Fim do Caminho talvez não tivesse sido escrito e entregue de presente para nós.
Pouco tempo depois, com a relação ainda um pouco estremecida pelo ocorrido, Neil resolveu voltar para os Estados Unidos enquanto Amanda permaneceu na Austrália para trabalhar no seu álbum. Atualmente, Amanda percebe o quanto foi difícil para Neil ficar longe dela durante o tempo em que ela esteve trabalhando na Austrália. Amanda ficou totalmente focada no trabalho, tão mergulhada que deixou todos de lado, e isso foi extremamente prejudicial para o seu casamento.
Enquanto Amanda havia se transformado numa esposa "zumbi", Neil começou a trabalhar num conto. O conto não se tratava apenas de uma mistura de memórias, mas de um presente para a sua esposa, ali estava a história que nunca havia sido compartilhada no dia em que eles corriam no parque na Austrália!!
E foi isso.. enquanto Amanda gravava seu álbum, Neil desatou a escrever uma sequência de palavras que transbordavam do seu coração por causa do vazio e da distância que se instalou entre eles. Depois de aproximadamente 1 mês, Neil e Amanda se encontraram em Texas para passarem uma semana juntos. Ele chegou até ela e disse "Eu acidentalmente escrevi um livro inteiro. Posso lê-lo para você?". "Sim", ela disse, e dessa vez ela escutou a história toda.
Neil havia escrito o livro à mão, capítulo por capítulo, como se fosse um escrito de um diário e teve que passá-lo para o computador, aproveitando as horas livres enquanto Amanda trabalhava no estúdio de mixagem. À noite, quando ambos chegavam em casa, Neil lia para Amanda o que ele tinha digitado.
"Foi uma longa e aterrorizante história. Foi uma linda história. Foi uma estranha história, misturando realidade com ficção de uma forma que me senti completamente mundana. Ele leu e leu e eu as vezes caía no sono. De manhã Neil me perguntava: "Qual é a última coisa da qual você se lembra?". A escova de dentes, eu diria, (...) ou Lettie aparecendo com o balde... e um pouco mais depois disso. E ele então recomeçava, lendo algumas páginas anteriores e me lia a história até terminar o capítulo. E ele fez isso, noite após noite, até terminar a história toda."
Eu achei muito engraçado porque Amanda disse que apesar de ter gostado da história, não conseguiu entender todos os significados apresentados no livro.
"Eu não sei. Talvez eu tenha levado tudo muito ao pé da letra. Essa ideia me aterroriza. Eu cresci numa atmosfera sem metáforas (...). Eu fico frustrada quando não consigo juntar os pontos. Quando finalmente chegaram as provas do livro, eu pude lê-lo em poucos instantes, com meus próprios olhos. Lê-lo, não ouvi-lo. E tudo passou a fazer sentido. Eu chorei muito. E mesmo assim, eu continuei sem compreender a história. Um dia, quando estávamos caminhando e conversando sobre o livro, eu fiz a ele uma pergunta sobre um dos simbolismos da história (...) Ele parou e olhou para mim e zombou de mim. Então ele preencheu os espaços em branco e conectou todas as pontas soltas. Eu o amei tanto naquele momento. E por um segundo, uma fração de segundo, eu me tornei fã de Neil Gaiman. (...) E por amá-lo como eu o amo, espero que vocês leiam o que li, e vejam o que eu vi, isto: um lugar obscuro onde homem e escritor se fundem em um só (...) misturados como ingredientes em um liquidificador que ao mexê-lo você consegue ver o todo, (...) como uma alma tão frágil, tão humana e tão vulnerável que você deve amar independente do que esteja lá, incondicionalmente, porque você não tem outra opção. Os ingredientes são absurdamente bonitos."
Impossível não nos emocionarmos com um relato desses, né?! Li o post da Amanda antes de ler O Oceano no Fim do Caminho e não pude saboreá-lo com imparcialidade ao saber que se tratava de uma belíssima história de amor e de entrega, dele para a sua amada Amanda.
Quem quiser ler o post completo escrito pela Amanda, clique AQUI. Eu o traduzi da melhor forma que pude.
Espero que tenham gostado de saber um pouco mais sobre a origem do livro.
Beijos e até amanhã!!